Arquivar para março, 2007

A poesia, o cartesiano e o holístico

Essa visão cartesiana, analítica, detalhista, às vezes me persegue.

Essa visão poética, romântica, intensa, explosiva, frágil e delicada, às vezes me persegue.

Essa visão holística, macro, desprendida, sem misericóridia, do alto, relacionalista, às vezes me persegue.

Me perseguem e brigam entre si. Não sou um, não sou dois, não sou três. Não sei quantos sou.

Sei apenas que não tenho a poesia da prosa de Clarice, por exemplo. Por Deus, não tenho também sua melancolia! Meus arroubos explosivos são também detalhistas e analíticos. Posso às vezes escrever diferente, mas sou claro. Como pode alguém ser claro e poético? Cartesiano e explosivo? Frágil e holístico?

Enfim, minha clareza me persegue e insiste. Não sei quanto dela consigo passar a você que me lê e me ouve, e não sei o quanto você quer ouvir.

Acho que esses atropelos filosóficos não são para todos. O homem comum quer distância dele, isso sei. Para quem eu falo, afinal? Sinto que aqui, às vezes, devo estar pregando para padres.

Por sorte meus devaneios filosófico-poéticos são absorvidos e sorvidos pelas sementes que cultivo. Outra mídia, outro público. E tenho a sorte de vê-las florecer. Amanhã serei eu a sorver delas.

No fim, só resta isso. Dos meus esforços poéticos, cartesianos e holísticos, os que fazem diferença mesmo são os menos notados. Os esforços que alimentam o corpo só são realmente relevantes enquanto exercícios retóricos. E é no amor que recebo o verdadeiro e consagrador pagamento e ele vale por todo esforço.

Meio

Para todos os cantos eu sempre falei: um mais um são dois.

E é verdade, a matemática não me desmente, nem mesmo os filósofos… Bom, talvez os filósofos…

Fato é que sempre fui um. Somado a ela, sempre fomos dois.

Mas também somos um: um casal. Agora estou “meio” casal. “Meio casal” quebraria o próprio conceito de “casal”. “Casal” tem que ser um, não pode ser meio.

E vejam só, na verdade pode. Pode quando o meio não é voluntário e as metades estão separadas por força contrária a sua vontade. Sua vontade mesmo era ficarem juntas.

Então nesse momento sou meio casal. Meio casal aqui, a outra metade lá no outro lado do mundo. Metades destinadas a se unirem, em breve, com data marcada.

Você percebe que é meio casal quando sai com seus amigos e é legal. E é somente isso: legal. Esses momentos não fazem parte dos melhores momentos da sua vida. Você percebe que faz parte desse negócio chamado “casal” quando todos os momentos que você passou foram os melhores. Agora são apenas bons.

Sorte minha, imensa sorte, ter vivido essa sensação extraordinária, e que inveja de mim mesmo em alguns meses em que voltarei a vivê-la.

Mariana, você a essa distância, no tempo e no espaço, tortura meu coração…

Misericórdia?

Não vejo Deus na forma medíocre, “misericordioso”.

Deus não é misercordioso. É justo, isso é verdade, e brado aos 4 cantos. Mas não misercordioso.

Vocês realmente acham que Deus se importa com nossos “problemas”, enquanto, usando o termo que vi recentemente, nossas ”Meat suites”, ou “vestimentas de carne”, sofrem?

Não. Ele não se importa. Tal qual colocamos uma crianaça de castigo, sem misercóridia, quando ela comete um erro, Deus nos deixa sofrer as consequências dos nossos erros, se for esse o melhor caminho para nosso aprendizado.

Não acredito em um Deus misercordioso. A palavra me parece que o caracterizaria com um Deus que mima a humanidade, que em diversos nichos já é bastante mimada. Onde está o Deus misericordioso na África AIDética? Onde está o alívio? E nas favelas paulistanas?

Se a resposta não é atuando na lei de causa e consequência, não sei qual é.

Quando todos nós aceitarmos que somos responsáveis pelos problemas que nos afligem diariamente o mundo será diferente. Quando entendermos, finalmente, que o mal que fazemos ao próximo (tão, mas tão próximo), nos atinge diretamente (apesar de não entendermos a linha direta de ação e reação), tudo mudará.

Resta-nos apenas a ilusão: Riquesa e pobresa, conforto e frio, medo, injustiça. Enquanto a resposta à equação final é sempre zero:

 

Recebe-se o que se dá.

 

 

 

Existe aí uma linha fina, a qual devemos tomar muito cuidado ao cruzar, afinal, não somos Deuses: Misericórdia é dever humano. Não há circunstância em que não devamos tentar ajudar o próximo. O problema é compreender a palavra “ajudar”. Quando ajudar é deixar sofrer as consequências, e quando é ajudar a entendê-las.

O governo?

Engraçado… Um Estado de direito e ainda insistimos em culpar o governo pelos problemas da nação…

“O governo rouba…”

“O governo não respeita…”

“O governo é corrupto…”

“O governo só pensa em si mesmo….”

Vamos, por um minuto, substituir “o governo”, pelas pessoas que o elegeram, “a sociedade”.

“A sociedade rouba…”

“A sociedade não respeita…”

“A sociedade é corrupta…”

“A sociedade no só pensa em si mesma…”

Faz mais sentido, não faz?

No filme “A queda”, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pela brilhante atuação de todos os atores, fotógrafos, historiadores, produtores, diretores, etc, que trabalharam no excelente retrato (também alemão) dos dez últimos dias do III Reich, um dos ministros de Hittler (não me lembro qual, talvez Gobles) coloca mais ou menos o seguinte, diante da invasação Russa e iminente morte de milhares de alemães em Berlim e das já inúmeras mortes da segunda grande guerra:

“Não tenho misericórdia. Eles nos escolheram como seus líderes, que vivam com isso.”

Parece falta de misericórdia, mas não poderia ser mais verdade. Cada povo tem o líder que merece.

E eu dou sentido a essa frase em cada microcosmo do que ela significa. Belive me.

(E por mais doloroso que possa ser, convivo com suas consequencias diariamente, já que eu também, assim como vocês, errei nas minhas escolhas, e, infelizmente, ainda erro).

Abandonemos as idéias naufragadas

“How does it happen that a properly endowed natural scientist comes to concern himself with epistemology? Is there no more valuable work in his specialty? I hear many of my colleagues saying, and I sense it from many more, that they feel this way. I cannot share this sentiment. (…) Concepts that have proven useful in ordering things easily achieve such an authority over us that we forget their earthly origins and accept them as unalterable givens. Thus they come to be stamped as ‘necessities of thought,’ ‘a priori givens,’ etc. The path of scientific advance is often made impassable for a long time through such errors. For that reason, it is by no means an idle game if we become practiced in analyzing the long-commonplace concepts and exhibiting those circumstances upon which their justification and usefulness depend, how they have grown up, individually, out of the givens of experience. By this means, their all-too-great authority will be broken.”

Albert Einstein, from ‘Ernst Mach.’ Physikalische Zeitschrift 17 (1916): 101, 102 – A memorial notice for the philosopher, Ernst Mach.

 

Quando eu falo que os homens comuns são patéticos, eu realmente quero dizer isso.
Estou de saco cheio do homem comum. Ele governa o meu país e eu (pessoalmente) não o elegi. Ele infesta as instituições que participo, e é de tão grande número que o meu maior esforço parece inútil.
Salvo-me em mais Einstein, que mais do que nunca, reforça algo que conforta e que sei verdade:

“A happy man is too satisfied with the present to dwell too much on the future.” 

Como eu já disse antes, tão importante quanto posição, é direção.

 

Nota mental: lembrar de falar sobre Crise = Estrutura - Idéias e de Jovem X Velho.

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