Arquivar para julho, 2007

Você não tem direito a sua opinião

Em um mundo onde os egos são maiores que a razão, todos acreditam que têm direito a uma opinião.

Qual não é a surpresa destes super-egos ao se depararem com esta informação categórica, e sem margem à contestação: Você não tem direito a sua opinião.
Eu sei, você acha que tem, e que afirmar que uma pessoa não tem direito a sua própria opinião é anti-democrático, para dizer o mínimo. Nesse momento um ser que vive em você desperta, disposto a por fim ao herege que teve coragem de dizer tal disparate.

Acalme-se, até o fim da leitura você vai concordar comigo que não tem direito a sua opinião; e isso não vai fazer de você uma pessoa anti-democrática ou que não respeita o direito dos outros. O mundo de hoje coloca tão frequentemente que temos direitos que na realidade não temos que você tem certeza que tem esse direito também. E também não tem.

E na realidade, não faz diferença que você não tem direito a sua opinião. Você vai perceber que, mesmo que tivesse esse direito, ele geralmente seria irrelevante e colocado quando menos importa.

Antes de mostrar que esse direito não existe, vamos ver porque ele seria irrelevante se existisse; vamos a um caso prático. Digamos, por exemplo, que tenhamos um liberal e um comunista discutindo, e o comunista coloca que concorda com a política atual do presidente Lula de inchar o Estado brasileiro com funcionários públicos. O liberal então expõe motivos que embasam o fato de ele discordar disso, colocando motivos claros do porque o Estado não deveria ser inchado e como isso faz mal ao país como um todo. O comunista após perceber que não encontra fatos ou opiniões a contrapor ao exposto pelo liberal, irrita-se, e diz que não importa o que o liberal esteja dizendo, que no fim das contas ele tem direito a sua opinião (a dele, não a sua).

Oras, a colocação do comunista de que tem direito a sua opinião é totalmente irrelevante à discussão. Não fará a menor diferença sobre a questão do inchaço do Estado o fato de o comunista ter ou não direito a sua opinião. Ela não acrescenta nada a discussão, e pior, não ajuda em nada o comunista a provar seu ponto de que o Estado deveria mesmo estar contratando como nunca. Ela não faz diferença.

O que realmente aconteceu é que o comunista, quando não encontrou nenhum fato ou idéia que pudesse utilizar, se colocou na defensiva, abandonou a discussão e se fechou na afirmação de que “tem direito a sua opinião”.

Não imagino ninguém ridículo o suficiente a ponto de afirmar que tem direito a uma opinião falsa. Se está afirmando que tem direito a uma opinião, é porque a considera verdadeira. Dessa forma, se o comunista tem direito a sua opinião verdadeira, e o liberal também tem direito a sua opinião verdadeira, e um dos dois, ou os dois, tem que estar errado (afinal são opiniões contraditórias), isso quer dizer que o direito de um dos dois está sendo violado, afinal, uma das opiniões é falsa. Então, de que serve um direito à opinião verdadeira, se esse direito é violado por nós mesmos, o tempo todo, justamente quando estamos errados?

Para resolver a questão temos que descobrir quem está tendo o direito violado, e para isso temos que descobrir se o Estado brasileiro deve ou não inchar de funcionários públicos. Voltamos à questão inicial, comprovando que o direito à opinião não existe, e se existisse não faria diferença.

Um direito que não é respeitado absolutamente nunca pelo próprio dono do direito não é um direito, não existe. É como se afirmássemos que gestantes têm direito à prioridade nas filas, mas nunca ninguém desse prioridade às gestantes, sem problema ou punição alguma, sem reflexo social. Podemos afirmar que o direito existe, mas na prática, não existe. Só passaria a existir quando tivesse reconhecimento social.

Existe ainda um outro problema. Todo direito traz também um dever associado. Um não existe sem o outro. Voltando à gestante: se ela tem direito à prioridade em filas, todos os não gestantes tem o dever de dar a ela essa prioridade. Esse dever não é algo opcional ao direito. Eles são a mesma coisa. Se não tivéssemos o dever de dar prioridade a gestantes, elas simplesmente não teriam esse direito.

Dessa forma, se você tem direito a sua opinião, qual o dever correspondente? Que eu preciso concordar com o que você expõe? Mas se for o caso, como fica o meu direito a opinião? Você vai ter que concordar com a minha opinião. E, se elas forem contraditórias, o que fazemos? Concordamos que o Estado, por exemplo, deve ao mesmo tempo inchar e não inchar? Se esse direito existe, como respeitá-lo?

Você deve estar pensando: “o seu dever é de deixar que eu mantenha minha opinião, afinal é minha opinião”.

É eu sei. Mas não, não tenho.

Suponha que você esteja indo realizar um mergulho, daqueles com tanques de oxigênio, e eu perceba que o tanque está quase vazio, apesar de você, na sua opinião, acreditar que está cheio. Eu tenho, nesse caso, o dever de impedir você de manter sua opinião, afinal, sabendo que você não é suicida, devo lhe ajudar a permanecer vivo. E isso vale para todo o resto. Um exemplo dramático como esse ajuda a evidenciar o fato, mas na verdade, toda opinião falsa deve ser desfeita. Todos temos o dever de ajudar a esclarecer as pessoas com opiniões falsas, e algumas vezes nós somos essa pessoa.

Entenda a dica: Quando ouvir de alguém que essa pessoa tem direito a opinião entenda: desista, afinal, você pode até querer descobrir se essa opinião é verdadeira, mas o seu debatente não quer.

Outro fato importante: tome muito cuidado com a expressão “Na minha opinião”. Na maior parte dos casos, se é você quem está dizendo, só pode ser na sua opinião. Do contrário, se não é sua opinião, você diria: “Na opinião de fulano…”. Mas não disse. Só é aceitável se você está vindo de uma longa explanação baseada em fatos, e quer expor algo que acredita ser verdadeiro e ainda não está comprovado. Algo do tipo: “Os átomos são formados de neutros, prótons e elétrons, e na minha opinião, deve existir também uma outra partícula aí no meio”. Fora disso é só gasto de tempo.

Idéias fortemente baseadas no livro “Crimes against logic”, de Jamie White. Se você gostou de não ter direito a sua opinião, vai gostar muito deste livro.

Vou palestrar no evento WebMobile TechWeek

WebMobile TechWeek

Minhas palestras no evento WebMobile TechWeek estão confirmadas. Serão duas:

  1. Criação de um portal com ASP.NET 2.0 e WebParts;
  2. XAML.

Vai ser nos dias 31/08 e 1/09. Quem quiser conferir a grade vai ver meu nome por lá, na ótima companhia de outros paletrantes muito bons.

O evento está prometendo ser muito bom. Vou aproveitar para assistir algumas palestras excelentes que estão na programação.

Vejo vocês lá!

A irrealidade do presente

De repente percebo porque gostamos tanto de fotografias. É algo que se revela do nada para mim, e do qual, de forma mais benevolente do que talvez eu devesse encará-la, se descortina:

A imagem congelada de certa forma é capaz de trazer o que há de melhor em determinada situação, e das pessoas que participam desta situação.

O ser humano envolvido em toda e qualquer ação parece ser superior a tudo naquele momento congelado. Quando tudo para, tudo parece ser possível.

 

Mas não é.

 

Só parece ser; não consigo deixar de ver as pessoas com mais otimismo do que elas mereceriam. O instante congelado devia carregar consigo toda a história que merece (e tem direito), e de certa forma, eu e você o livramos disso. Crime contra nós mesmos.

Naquela foto tudo parece lindo, tudo parece possível, parece que tudo vai dar certo. Vai terminar no lugar certo.

 

Mas só parece.

 

Não sei se esse sentimento, essa crença em pessoas e futuros melhores é devida, só sei que não consigo viver sem ela.

 

Preocupo-me somente com a falsa imagem enviada (transmitida?) pelo mundo (por todos nós?). Pare a música, tire a cor, rebobine e assista de novo. Traga o mundo ao mundo real, o mundo em que você vive; sem esse filme de cinema, esse filme tratado, tudo o que você viu. Traga o que é.

De repente, tudo parece se relacionar com você. Essa música, essa cor, esse movimento parece criar um novo universo, que não é seu, ou meu. Isso me assusta. Por quanto tempo eu venho aceitando (vivendo?) esse universo que não é meu?

 

Me resta a vida, redentora do tudo, até do tempo perdido. Por sorte não tenho errado tanto! Me resta voltar a olhar o mundo com menos trilhas sonoras e menos filtros visuais, olhá-lo mais como ele é. Ouvir mais o som, cheirar mais o cheiro. Sentir.

Crime tremendo é colocar-nos nesse aquário. De repente meu cérebro parece menor que o de  um peixinho dourado.

 

E o de vocês?

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