Porque eu desejo impossivelmente o possível

“O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço…”

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

 

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A intensidade tem seu custo.

Ana Cañas, CéU, e o que mais eu estou perdendo?

Uma amiga indicou CéU. Ouvi no Youtube, e percebi que eu estava perdendo algo. Ouvi mais algumas coisas, e confirmei. A mulher é reconhecida no mundo inteiro, mas parece ser pouco conhecida aqui. Ou era só eu?

A mesma amiga indicou Ana Cañas. Mesma coisa: Youtube, site, pesquisei um pouco. A mulher canta bem, faz caras e bocas nos clipes, que são super originais, e ainda é bonita.

Onde eu andava? Bom, tudo bem… já passou:

CDs Ana Cañas e Céu

Não resisti.

O flerte

De todas as danças, o flerte é a mais bonita.

Saudades de não sei o quê

Às vezes me pego tendo saudades de coisas que eu aparentemente não sentia falta.

Será que sempre olhamos o passado com olhos bons demais?

Às vezes há momentos ruins associados a uma pessoa, uma foto, uma situação… Mas geralmente o que me fica são os momentos bons. São eles que dão saudade. Nem ligo pros ruins.

Acho que esse é um dos motivos que me permitem dizer que não há pessoas da qual eu não goste. Há os que eu me afino mais, outros que me afino menos. E depois de um tempo, tudo de ruim é lavado; não lembro mais.

Ficam só as coisas boas. Melhor assim.

 

Saudade é uma coisa boa, que também é ruim. É ruim porque parece que quer te prender a uma realidade que não é mais a sua, de quando você era outro você. Mas é boa porque, abusando do clichê, relembrar é mesmo viver. Os momentos bons são revividos, e trazem consigo as alegrias do instante.

Oportunidades são efêmeras

Oportunidades são coisas de momento. Ou aproveitamos ou deixamos passar. Não há “outras oportunidades”. Há a oportunidade atual. E, de repente, não há mais.

Entrego o dorso nu

Ouvi "O Fortuna" (parte de Carmina Burana), na versão orquestrada por Carl Orff, ontem, em um lugar pouco provável. Eu gosto muito deste poema, ele é de uma verdade tão profunda que machuca, acho que devido à pequenez de quem o ouve. Gosto muito desse poema, já cheguei até a postá-lo por aqui, traduzido. Não é possível ouvir "O Fortuna" depois de entender sua letra forte, e esquecer o que ela significa. Não consigo deixar de tentar relembrar sua letra em Latim, ou sua tradução no português.

A letra trata da sorte, e como ela manipula nossas vidas. A palavra "fortuna" é tratada no latim com este significado: sorte. "Ó Fortuna/És como a vida/Mutável/Sempre aumentas/Ou Diminuis".

Eu, um cara mais racional do que eu deveria ser, não acredito em sorte. Não gosto deste nome. Acho que as coisas acontecem de uma forma mais complexa do que o nome "sorte" implica; acho que o acaso não existe, e sorte implica acaso.

Também não acredito em destino. Acho que fazemos nosso destino a cada pequeno passo, a cada respiração, a cada contato, a cada pensamento.

Ainda assim, algo há. Algo há que muda tudo, que, orquestrado tão belamente quando Orff orquestrou "O Fortuna", é capaz de modificar minha vida, meu futuro e meu presente. Uma conjunção de fatores se reunem e tudo muda. Não sei explicar o que é e como se dá, apenas sinto que há.

E sinto que as consequências dos nossos atos estejam às vezes além do nosso entendimento. E a sorte – tomando uma conotação menos aleatória, nesse sentido, talvez exista. E de certo, não a entendo.

Me incomoda saber que a sorte, o caos em sua expressão mais forte, seja capaz de influenciar minha vida de maneira irremediável. Aceitar que uma decisão tomada por mim anos atrás impacta de maneira inesperada uma situação que vivo hoje é estranho, mas aceitável. A questão é que não entendemos a forma como que isso acontece, às vezes a muitas voltas, tantas que não conseguimos enxergar. Mais difícil de entender ainda é que as decisões alheias são capazes de influenciar nossas vidas da mesma forma, ainda que, imagino eu, em menor intensidade. Quase impossível de tentar entender é que fatos pequenos, mundanos e não planejados ou decididos, sejam capaz de influenciar também.

Seria a vida uma ópera dissonante, ou apenas dissonante apenas a quem não a entende?

Até onde somos autônomos e soberanos sobre a totalidade das nossas próprias vidas? Está aí uma questão que não devo conseguir responder no meu tempo de vida.

Sabiam que tenho Twitter?

Pois é: @giovannibassi

http://twitter.com/giovannibassi

Geralmente coloco coisas técnicas por lá, mas não sempre.

Constatação saudável

Faz quase um ano que comecei a fazer academia. Fui porque estava adiando, adiando e adiando. Enquanto isso, minha barriga crescia, crescia e crescia. E meu fôlego… cada vez menor.

Perdi 12 quilos em 6 meses, e lá se foi quase toda a barriga, perdi 6 números na calça. O restinho que sobrou está indo embora aos pouquinhos. Ganhei 4 quilos de volta, porque passei a fazer musculação. Ou fazia musculação ou ia ficar com o corpo que tinha aos 17 anos, magrelo, o que não ia ser legal.

Diminuí meu treino, que começou em meia hora, passou por uma hora, e chegou a uma hora e meia. Tenho um bom amigo que me deu umas dicas, sugeriu diminuir, e está agora em mais ou menos 45 minutos.

Meu corpo continua mudando, e para melhor, o que é uma constação legal.

Mas mais legal é perceber que não me incomoda mais me manter em forma. Antes eu ficava incomodado de ter que ir à academia, que é no meu próprio prédio. Não mais. Desço lá ouvindo podcasts diversos, ou rádio, ou música. Como é bem rápido, não adio mais (fazia isso quando sabia que ia ficar lá uma hora e meia). E me sinto bem depois, gratificado.

Outra constatação legal foi perceber que agora tenho força e disposição para fazer algumas coisas, que antes me cansavam. Se saio à noite posso passar a madrugada inteira acordado, o corpo sustenta. Tenho força para me movimentar. E é legal perceber o progresso na musculação, perceber que a cada dia você fica um pouquinho mais forte, mesmo que seja só um pouquinho. Motiva.

Depois dos primeiros meses, que percebi que a barriga estava indo embora de vez, fiquei mais tranquilo. Tinha diminuído, ano passado, a quantidade e o tipo de comida, porque engordava mesmo se comesse pouco. Agora posso me esbaldar, como e bebo o que quero, quanto quero. Não engordo mais.

Sem dúvida foi uma das melhores iniciativas que tive no final do ano passado, e que mantenho atualmente. Tenho certeza que vou continuar colhendo frutos.

E não sou neurótico, vou só quando dá. A questão é: se dá, eu vou. Não fico enrolando. Atualmente vou de 3 a 4 vezes por semana, raramente cinco, mas sem dia marcado. Simplesmente vou.

Não me lembrava que era tão simples ir do formato de pera à um corpo mais bonito e saudável. Menos de um ano. Que legal.

E a lei anti fumo?

À zero hora da sexta-feira, ou seja, em menos de 24 horas, a lei anti fumo em São Paulo vai estar efetiva.

Eu, que odeio cigarro, ou qualquer outra coisa de fumar, comemoro.

E comemoro com um sorriso no canto da boca, daquele meio sacana, sabe? Estou adorando ver os fumantes desesperados, esperneando que querem fumar onde bem entenderem, que é direito deles, e bla bla bla. Mais engraçado ainda são os donos de bares e restaurantes, alegando que vão ter uma queda no movimento. Dou gargalhadas em cada uma dessas manifestações.

A pérola foi do Amari Jr. que vi dizendo algo assim, todo malandrão:

"- Um amigo meu é fumante, quer abrir um restaurante onde todos os garçons e funcionários são fumantes, também não pode?"

Ainda bem que eu não sou daquelas pessoas que fala com a TV, senão ia dizer: "NÃO! Não pode." Seguido de uma óbvia gargalhada!

De certa forma me sinto vingado, por toda vez que um fumante sem noção acendeu um cigarro em um restaurante. Por todo restaurante que tinha área de fumantes ao lado de área de não fumantes. Por todo cidadão folgado que achava que pode acender cigarro enquanto você ainda está comendo. Por gerentinho que se sentia o dono do mundo e achava que podia fumar na cara dos funcionários. Foram vocês, os folgados, que deram o maior incentivo à criação da lei.

Aos reclamões de plantão, que levantam bandeira da liberdade individual, entendam: eu defendo o seu direito de fumar, de beber, de cheirar, de injetar, de fazer o que você achar melhor. Só que o meu incômodo e minha saúde tem precedência. Você pode continuar fumando, só não pode fumar enquanto eu como, enquanto vou a um restaurante, ou a uma reunião.

E eu vou ser um daqueles que avisa o dono do lugar: se o lugar não aderir à lei, vou tirar uma foto com o celular, e vou denunciar. Estou ansioso para poder ir a alguns bares que tanto gosto, mas que sempre me impregnaram com esse cheiro horrível. O Little Darling é um que não tinha como ir sem ficar fedendo.

Aos donos de restaurantes, lembrem-se que as pessoas vão aos seus estabelecimentos para comer, não para fumar. Ninguém vai deixar de sair para comer porque não pode fumar no seu estabelecimento, porque não vai ser só no seu.

O mesmo vale para os bares: ninguém vai deixar de ir pra balada porque não pode fumar. Homem vai pra balada pra pegar mulher, não pra fumar (a maioria).

Lembrando, sempre pedimos com educação, e nunca chegamos a isso:

 

Mas agora já deu.

Meu país

Começando a proposta de discutir as questões do politicalcompass.org, começo com essas:

1) I’d always support my country, whether it was right or wrong.
2) No one chooses his or her country of birth, so it’s foolish to be proud of it.

Traduzido:

1) Sempre vou apoiar meu país, esteja ele certo ou errado.
2) Ninguém escolhe o país onde nasce, portanto é tolo ter orgulho disso.

Eu sempre digo que só sabe o peso do seu país quem já morou em outro. Só quem está ou esteve nessa posição sabe como é duro ficar longe do lugar que você reconhece como seu, ouvindo uma lingua que, mesmo que você entenda perfeitamente, não é a sua, e convivendo com costumes diferentes dos que lhe soam naturais. São detalhes, mas que fazem muita diferença, principalmente quando a rotina do dia a dia começa a pesar.

Por esse motivo, não posso dizer que vou apoiar meu país somente se ele estiver certo. Mas não posso apoiá-lo se estiver errado também.

Na verdade, a questão é mais complicada. Temos que analisar caso a caso. Não apóio o país quando um de seus governantes faz algo absurdo, como aconteceu recentemente, quando o governo brasileiro não deportou o terrorista italiano. Por outro lado, em uma situação de guerra, por exemplo, talvez o país erre, e mesmo assim eu continue a apoiá-lo, porque não quero ver sua ruína. Também não apóio o governo quando decide adotar práticas protecionistas, por dois motivos: fazem mal à outros países, e, mesmo que não fique tão claro, fazem mal aos brasileiros também.

A questão do orgulho é engraçada. É comum o brasileiro só ter orgulho do Brasil na copa do mundo. E futebol me dá a impressão de batalha medieval, então não vou me apoiar neste sentimento bruto.

Tenho orgulho do Brasil em alguns momentos sim. Quando o país começa a sair do buraco, e se colocar como um dos países importantes do mundo, isso é resultado do trabalho de todos os brasileiros, que apesar de seus políticos e criminosos remando para trás, continua trabalhando forte, e impondo sua honestidade. É algo que dá orgulho, porque é algo coletivo. Não são 11 jogadores em um gramado, são milhões de pessoas lutando por algo melhor. O mesmo vale por nosso imenso sentimento de caridade. Essa vontade de ajudar ao outro é algo que dá orgulho.

Essa questão do orgulho é difícil explicar, mas é algo que sinto sim. Infelizmente, ele vem com frequência acompanhado da vergonha. Se não houvesse orgulho, talvez não houvesse vergonha. Vergonha do nosso governo abilolado e ladrão (em todos os seus poderes), vergonha do jeitinho brasileiro, vergonha de gente que mais atrapalha do que ajuda, e que carrega o mesmo passaporte do que eu.

Mas sou um otimista. Acho que até o fim da minha vida o orgulho ganha. Espero.

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